Volkswagen do Brasil afirma que dispositivo que altera níveis de emissão não está ativo na Amarok

Teste de emissões da Volkswagen Amarok no Brasil (Foto: Autoesporte)
Desde o final do ano passado, a Volkswagen do Brasil está fazendo testes para descobrir se o dispositivo instalado em 17.057 unidades da picape Amarok está, efetivamente, alterando os níveis de emissão do motor. Análises preliminares feitas em laboratório e durante rodagens nas ruas de São Bernardo do Campo mostraram que “o dispositivo não estava ativo e não otimizava os níveis de emissões”. As informações fazem parte da resposta oficial da empresa ao Ministério da Justiça, a qual Autoesporte teve acesso. Segundo a Volks, a Amarok 2011 testada emite de 0,7 a 0,8 g/km de óxido de nitrogênio, valor inferior ao 1,0 g/km estabelecido como limite pela lei da época.

O Ministério instaurou processo administrativo para investigar se a Volkswagen infringiu o Código de Defesa do Consumidor. Em sua defesa, a montadora explica todos os procedimentos adotados desde a confirmação de que algumas picapes vendidas no Brasil contavam com o mesmo sistema que fraudou as emissões em diferentes países. O software é descrito pela VW como “dispositivo que otimizava os níveis de emissões em testes laboratoriais” e é responsável por uma das maiores crises globais que o grupo Volkswagen enfrenta desde o final do ano passado.

Se ativo, o equipamento reconhece quando o carro está rodando em ruas comuns ou se está em testes laboratoriais. Caso detecte que os níveis de emissões podem estar sendo monitorados por autoridades, o software faz com que o motor emita menos óxido de nitrogênio (NOx). Assim, o veículo poderia ser aprovado em regras mais rígidas de emissões de poluentes em alguns países, mesmo sem atender aos índices exigidos. Isso, porém, não aconteceu no Brasil, segundo a defesa da Volkswagen.

Volkswagen Amarok em testes com equipamento PEMS (Foto: Autoesporte)

No documento, a empresa explica que, para fazer os testes, equipou uma unidade da Amarok a diesel com um sistema chamado de PEMS (Portable Emissions Measurement System, ou sistema portátil de medição de emissões), que é capaz de medir os poluentes emitidos enquanto o carro é dirigido em ruas comuns. O objetivo é fazer a comparação entre os números registrados pela Amarok diesel quando está sendo dirigida por um consumidor e na medição em laboratório. Assim, seria possível entender se o dispositivo que frauda as emissões em testes está ou não ativo. A montadora contratou o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) para auxiliar as aferições.

Equipar a picape com este novo equipamento foi necessário, segundo a Volks, porque “a legislação, ao detalhar os passos para a homologação de um veículo no tocante aos níveis de emissão, estabelece como mandatório, apenas, a rodagem em laboratório, fazendo com que a indústria automotiva possua, ‘apenas’, o equipamento laboratorial capaz de aferir os níveis de emissões”.

Resultados dos testes

Segundo o documento obtido por Autoesporte, a primeira etapa da investigação interna já foi concluída e consistia em fazer os testes em ruas e em pista fechada para comparar os dados obtidos com os índices calculados em laboratório. “Esta correlação pode ser interpretada como uma espécie de calibração do sistema ao laboratório”, diz a empresa no documento. No final de março, quando o documento foi elaborado, a Volkswagen havia concluído 10 testes com o PEMS, “cada qual seguindo um determinado ciclo de rodagem”.

Na próxima fase, serão realizados mais testes internos e externos com ciclos de rodagem específicos. O objetivo é avaliar como os níveis de emissões se alteram em cada cenário. “É esta fase que determinará o efetivo nível de atuação do dispositivo (software) e que comprovará que os níveis de emissão encontram-se dentro dos parâmetros fixados pela legislação”, diz o documento. Só depois disso, na última etapa, é que os técnicos da Volkswagen definirão a “adequada dinâmica de testes de rodagem” que será implementada. Ou seja, estabelecerão os parâmetros para os testes finais.

Mesmo que as análises ainda não tenham sido concluídas, a própria Volkswagen afirma que “até o momento, todos os testes realizados esclarecem que, apesar da existência do dispositivo, o mesmo não encontra-se ativo (funcional) e não provoca alterações nos limites legais de emissões”.

Como funcionam os testes:

Testes de emissões da Volkswagen Amarok no Brasil são divididos em três etapas (Foto: Autoesporte)

Software desativado

A representação da montadora no Brasil também explica que equipou uma unidade da Amarok com um segundo dispositivo, responsável por desativar o software que é capaz de manipular as emissões. Segundo a empresa, os testes não mostraram variação na emissão de gases antes ou depois da instalação do segundo equipamento. “O resultado foi o de que o software não otimizou as emissões no veículo testado”, diz a empresa.

Durante esses testes, a Amarok 2011 testada teria emitido entre 0,7 g/km e 0,8 g/km de NOx, índice que é inferior ao limite de 1,0 g/km estabelecido pela Fase PL4 do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), do Ibama. Conforme a Volks, esta era a legislação vigente quando a picape foi homologada no Brasil. “Em ambos os cenários testados, as emissões estavam abaixo do limite, o que comprova que o item não estava ativo e não provocou alterações nos limites e exigências previstos à época na legislação”, diz trecho da defesa administrativa da VW.

A empresa finaliza sua resposta explicando que somente ao final das três etapas de testes será possível afirmar se houve qualquer tipo de “prática abusiva”. A Volkswagen não divulgou, porém, um prazo para concluir os testes.

Volkswagen Amarok (Foto: Pedro Danthas/Volkswagen)

Volkswagen Amarok (Foto: Pedro Danthas/Volkswagen)

Processo administrativo

O processo administrativo foi instaurado pelo Ministério da Justiça em meados de março para apurar se a venda de 17 mil Amarok no Brasil com o software responsável por fraudar as emissões caracteriza prática abusiva da empresa e desrespeito ao Código de Defesa do Consumidor. Depois de recebida a resposta da Volkswagen, as informações serão analisadas pelo órgão, que não tem um prazo para se posicionar. Em seguida, a empresa poderá fazer alegações finais e, por fim, o Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor (DPDC) tomará a decisão final. Caso seja condenada, a montadora poderá ter que pagar uma multa de até pouco mais de R$ 8,5 milhões.

Esta seria a terceira multa aplicada à Volkswagen do Brasil por conta do escândalo mundial de fraude nas emissões. Em novembro do ano passado, o Ibama multou a empresa em R$ 50 milhões. Alguns dias depois, o Procon de São Paulo aplicou uma multa de R$ 8,3 milhões à empresa pelo mesmo caso. As duas instituições exigiram que a Volkswagen faça um recall para reparar este problema gratuitamente.

Em todo o mundo, a falha atingiu carros da Volkswagen, Audi, Porsche e outras empresas do grupo VW. No total, mais de 11 milhões de unidades foram equipadas com o software. No final do ano passado, o grupo estimava gastar cerca de 6,5 bilhões de euros para consertar todos os carros fraudados.

O escândalo derrubou o valor das ações da Volkswagen e fez com que o CEO do grupo Martin Winterkorn renunciasse ao cargo. Mais recentemente, o CEO da Volkswagen dos Estados Unidos, onde a fraude foi descoberta, também deixou o posto.

Volkswagen Amarok (Foto: Pedro Danthas/Volkswagen)

Volkswagen Amarok (Foto: Pedro Danthas/Volkswagen)

O outro lado

Em resposta à Autoesporte, a assessoria de imprensa da Volkswagen afirmou que as investigações internas constataram que “o uso ou não do dispositivo na Amarok não prejudica o cumprimento dos limites de emissões” e que, apesar disso, “uma atualização do software se encontra em desenvolvimento pela matriz da empresa na Alemanha para aplicação nos países afetados”. Para reverter a questão, a empresa instalará um novo software e garante que “a aplicação do software não afeta a segurança nem a funcionalidade do modelo”.

Confira a íntegra da resposta:

“Após as investigações internas realizadas pela Volkswagen sobre a instalação do software que pode otimizar os resultados de emissões, foi constatado que o uso ou não do dispositivo na Amarok não prejudica o cumprimento dos limites de emissões estabelecidos pela legislação brasileira. Mesmo assim, conforme já informado às principais autoridades governamentais e aos meios de comunicação, uma atualização do software se encontra em desenvolvimento pela matriz da empresa na Alemanha para aplicação nos países afetados.  A medida corretiva, com base em nosso conhecimento atual, para 17.057 unidades no mercado brasileiro, será feita por meio de um novo software. O modelo Amarok, equipado com motor a diesel 2.0L, do tipo EA189, foi desenvolvido na Alemanha e produzido na Argentina.  A Volkswagen reafirma que a aplicação do software não afeta a segurança nem a funcionalidade do modelo”

Chassis envolvidos

Amarok ano-modelo 2011 – Chassis não sequenciais: de BA000257 até BA000338

Amarok ano-modelo 2011 – Chassis não sequenciais: de B8000200 até B8082605

Amarok ano-modelo 2012 – Chassis não sequenciais: de CA001950 até CA026145

Fonte->> Revista Auto Esporte

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